Retirada do Marechal Soult III
Retirada do Marechal Soult . Parte III
Entre Paradela e Cambeses do Rio.
Seguindo na esteira do exército do marechal Soult, o Grupo Portuense de Montanhismo – GPM, levou-nos a conhecer a magia agreste das terras morenas do Barroso.
Quase dois séculos passados, o mesmo caminho, é agora percorrido por um exército de caminheiros à procura da memória daqueles dias de Maio de 1809, carregando entusiasmo e em paz com a natureza.

Sabemos que o ano de 1809 foi particularmente chuvoso, dificultando a marcha dos fugitivos e das tropas do general Silveira que seguiam na sua perseguição.
Recorde-se que, tendo este, cortado a retirada pela estrada de Chaves, obrigou Soult a seguir o difícil e antigo caminho para Montalegre, por apertadas veredas.
Confessamos que estávamos ansiosos por conhecer o rumo que o marechal teria seguido, continuando pela antiga estrada para Montalegre ou optando pelo caminho velho na direcção de Pitões. As dúvidas ficaram desfeitas, a partir de Paradela do Rio, uma vez que o comandante das nossas hostes tomou a direcção da raia seca do Larouco.

Seguindo a primeira das opções, fomos à procura das aldeias barrosãs, com o típico casario aconchegado no fundo dos vales, pela solidariedade que resulta do seu comunitarismo, e abrigado do impiedoso clima.
O que se terá passado na madrugada de 17 de Maio ninguém o sabe. Soult abandona a Paradela, e marcha com uma divisão de Dragões pela linha da cumeada que separa o Cávado do Rabagão, seguindo o resto do exército pela velha estrada na direcção de Montalegre. Por onde passaram foram queimando e saqueando o pouco que ficou, num terreno parco de recursos.

As povoações fugiram para a serra, levando o que puderam, pondo o gado a salvo, destruindo pontes, e posteriormente, perseguindo e atacando os mais atrasados, não lhes poupando a vida, tal era o ódio que tinham ao invasor.

Tomando o mesmo rumo, utilizamos o itinerário seguido pelo exército em fuga, fazendo uma paragem em Fiães do Rio, junto à casa onde nasceu Bento António Gonçalves. Com o futuro traçado para tratar dos lameiros e do gado, abandonou o torrão natal, aos 13 anos por morte de sua mãe. Partiu para Lisboa, tendo sido mais tarde secretário geral do PCP, e teve encontro com a morte no Tarrafal, com 40 anos de idade.
As mesmas aldeias, em tempo de paz, estão hoje desertas, onde apenas resistem os idosos, sem forças para poderem partir à procura de melhor futuro. Estão hoje tão desertas e abandonadas como dois séculos atrás, quando os seus habitantes fugiram para a serra, escapando à barbárie da soldadesca de Soult.

Que país é este, que obriga os seus filhos a procurar bem longe o pão do dia a dia? Quando chegamos a S. Pedro os nossos hábitos citadinos levaram-nos à procura da indispensável bica. Foi ali, num pequenino mas acolhedor café que a companheira Olinda nos leu de forma exemplar, um texto de Miguel Torga, patrono dos montanhistas que amam a natureza no seu estado puro.

Com as baterias carregadas e respirando o mais puro ar do planalto barrosão, abandonamos por pouco tempo o histórico caminho, devido ao espelho de água da barragem do Alto Cávado, fazendo a travessia pela ponte dos galegos.

Após algumas tentativas, os satélites no céu e o gps na terra, conduziram-nos à reconstituição do traçado que em certos locais desapareceu completamente e com algumas hesitações é certo, até Cambezes do Rio, através da planáltica lombada deste território barrosão, com a serra do Larouco a testemunhar a nossa caminhada.
Por este mesmo caminho arrastou-se o esfarrapado exército do marechal, rendido à capacidade de sofrimento e argúcia da gente simples, humilde e corajosa do norte do país, que se juntou ao general Silveira.
Texto: Fernando Fontinha
Fotos: Jorge Ribeiro
4 Comments:
Ao GPM
Parabéns pela contribuição dada para a saúde física , psicológica e cultural do nosso Povo.
Similar parabéns para o redactor da jornada porque, para além de atrair novos candidatos para as caminhadas, deixa para a posteridade o registo de algo que já tendo passado não mais ficará perdido no tempo que continuamente passa.
Mário R.
Mais uma vez, parabéns por seres o nosso guia nestas marchas de montanhas,campos,estradas,caminhos,aldeias e cidades!
Continua! Pois assim também continuamos!
Isabel ferreira
Simplesmente Excelente...
Percurso óptimo, para aprendizagem com GPS (que foi o meu caso)
Agradeço a disponibilidade prestada pelo Fontinha e...como não poderia deixar de ser...o Marechal Jorge, já que sem este último mas sempre primeiro... não seria possivel.
assino
JM
JM
Agradeço esta caminhada,nasci nessa linda terra de que tanto me orgulho.
Obrigado por estes momentos.
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