quinta-feira, maio 24, 2007

Caminhos do Paraíso


De Parada a Pitões das Júnias pelos “Caminhos do Paraíso”

19 de Maio de 2007


Grupo Portuense de Montanhismo, GPM, dando sequência ao seu programa para 2007, realizou no passado dia 19 de Maio, mais um percurso pedestre, num dos locais mais recônditos da serra
do Gerês.


Foi com muita expectativa, que os peregrinos das montanhas, receberam a proposta. Por outro lado, a visita ao Fojo de Parada e ao que resta do antigo mosteiro cisterciense de Santa Maria das Unhas, que a simplificação fonética transformou em Santa Maria das Júnias, não permitia faltas de comparência.



Neste velho país com quase 9 séculos de história, ainda é possível encontrar locais, onde os benefícios do progresso se têm mantido afastados, permitindo eternizar espaços de grande valor ecológico e paisagístico. Aqueles que os conhecem, ou os mais aventureiros, têm desta forma a felicidade, de desfrutar momentos que dificilmente se apagam da memória. Referimo-nos ao centenário bosque mediterrânico de formação espontânea – denominado carvalhal do Beredo – conhecido pelo menos a partir do século XVI. O antigo caminho, entre as aldeias barrosãs de Parada de Outeiro e Pitões da Júnias, atravessa-o, permitindo uma bela caminhada.




Com as senhoras em maioria, partimos, já com a manhã adulta. S. Pedro, percebeu as nossas intenções, proporcionando-nos um belo dia primaveril, onde o silêncio da aldeia, foi momentaneamente interrompido pela ansiedade e natural entusiasmo do grupo. Percorre-se o interior do aglomerado rural em passo lento, tentando perceber as dificuldades criadas pela perda dos lameiros, devido à albufeira de Paradela. Ao mesmo tempo, ajustamo-nos ao caminho, pisando terra até ao fojo do lobo de Parada, na portela da Fairra. À medida que se progride, trocam-se os primeiros entendimentos, mas a partir da portela, o caminho de malha mais apertada, vai moldá-lo num grupo coeso, alegre e comunicativo.
Depois de explicado o essencial sobre este tipo de armadilhas de caça, rompe-se caminho para o velho carvalhal. Aos poucos, quase sem darmos por isso, uma bela e densa mata de carvalho negral, protege a nossa passagem. O vale, apertado pelas rudes encostas do Gerês, faz com que as copas se entrelacem, imitando figuras curiosas, que a nossa imaginação vai criando.



É mesmo possível imaginar os duendes da floresta a esconderem-se à nossa passagem. Os tons esverdeados do bosque, e o seu isolamento, lembram paraísos que merecem uma exploração mais demorada. Sem descortinar a razão, o grupo caminha em silêncio interiorizando a beleza do momento. Tudo é belo e estranho, desde o rumor dos rápidos do ribeiro do Beredo aos cânticos dos habitantes do bosque, mostrando insatisfação, pela partilha deste éden da natureza. Ocasionalmente, as copas formam pequenas clareiras, e a capelinha de S. João da Fraga transforma-se num pequenino ponto branco, aparecendo Pitões na linha do horizonte.
Após atravessarmos uma pequena linha de água, que se forma no Alto do Cavalhão, o caminho transforma-se num pequeno trilho, exigindo muita atenção para não nos enganarmos. O destino é a ponte, que permite a travessia do ribeiro do Campesinho, famoso pela cascata. Faz-se uma pequena pausa, após cerca de 5 km de marcha, pois em breve, temos de enfrentar uma dura subida.



Foi com alívio que atingimos a cota dos 1000 metros, palmilhando agora um antigo caminho que os monges certamente utilizaram, para se dirigirem ao mosteiro. É esta a melhor forma de obtermos uma visão mais abrangente do cenóbio, apanhando-o por sul.
Enquanto se caminha, são visíveis os contrastes desta terra barrosã, apertada entre as serranias agrestes do Gerês e os contornos suaves do planalto da Mourela. Impotentes, observamos o que dele resta.

O seu considerável património, construído entre os séculos XI e XVI, continua à espera que o recuperem, sem que se vislumbre qualquer esforço nesse sentido. Aproveitamos o recolhimento do lugar para almoçar e descansar um pouco, embalados pela melodia das águas do Campesinho. Junto ao que resta do antigo claustro, tiramos a foto do grupo, formalidade testemunhada pelo relógio de sol, encastrado há séculos no despido campanário.


Com pesar, fomos abandonando o afloramento granítico do mosteiro, entretido com as suas diaclases, e continuamos em direcção à aldeia, fazendo uma visita à casa do Preto. Depois de abastecidos, a tarefa seguinte é descobrir o caminho, que permite o regresso pelo trilho da margem direita do Beredo. Enchem-se os cantis na fonte do Taralhal e partimos à descoberta.


São cerca de 3 km, por um belo caminho, cheio de sombras, ziguezagueando pela encosta abaixo, e que em tempos mais recuados terminaria certamente nas poldras, que insatisfeitas pelo abandono a que foram votadas, se recusam a dar passagem.
Um pequeno atalho, leva-nos a uma estreita ponte. Na outra margem, espera-nos um caminho de pé posto, que corre paralelo ao ribeiro. Numa extensão de cerca de 1,5 km, vamos percorrer o coração do bosque, acompanhando o remurmurejar das águas, protegidos pela sombra dos carvalhos.


Recuperamos a nossa marcha silenciosa, ao saboreamos a natureza no seu estado puro, com o espírito absorvido e repousado no imenso bosque, ao mesmo tempo, felizes por termos descoberto o verdadeiro caminho do paraíso. O trilho desemboca noutra ponte, facilitando de novo, a travessia.
Ao ultrapassamos o cabeço do Canda, avistam-se os contornos suaves da serra da Cabreira, onde uma plantação de “alvíssimas heólicas” floresce, na cumeada. Regressa-se a Parada, pelo caminho dos lameiros que acompanha a albufeira, terminando a nossa jornada de 19 km, com uma visita mais demorada ao núcleo rural.



No final, ainda houve tempo, para votar uma proposta, no sentido dos “deuses da floresta” continuarem a manter exclusividade da defesa e protecção do carvalhal do Beredo, até ao próximo milénio. Aprovada por unanimidade, foi elaborada a respectiva acta. Na falta do selo branco, o documento foi autenticado, pelo polegar de um dos caminheiros, tornando o acto oficial e entrando desta forma para os anais da história.


Texto: Fernando Fontinha

Fotos: Jorge Ribeiro




4 Comments:

At 11:29:00, Blogger Monica said...

Parece que vou estrear com o primeiro de muitos comentários... melhor do que as fotos e o texto só fazer o percurso. Tinha uma ideia de que este seria magnífico e a descrição não desiludiu, mas a minha barriguinha já não me permite. Há uma margarida à espera de conhecer este mundo maravilhoso, que mais tarde se irá juntar a estas caminhadas fenomenais- fica prometido um bis, OK?

 
At 22:21:00, Blogger Paula said...

Olá
Infelizmente não puder ir a esta caminhada ...
E já percebi que perdi algo muito belo
Não se esqueças de me enviar o email para a ir proxima caminhada

 
At 12:02:00, Anonymous M.Augusto said...

Foi um privilégio participar neste percurso. A beleza da paisagem, o deslumbrante carvalhal, o magnífico mosteiro...tudo se conjuga para o considerar um dos mais belos em que participei.

 
At 17:13:00, Blogger Graça Duarte said...

Excelente trabalho: fotogáfico e literário. Resta-me a pena de não o ter partilhado convosco, ainda mais porque as minhas raizes estão por ai - Outeiro.
Parabéns por aquilo que permitem vivenciar e pela vossa coragem e disponibilidade para com todos os caminheiros que aderem às vossas iniciativas.
Um abraço
Graça Duarte
Amarante

 

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