Retirada do Marechal Soult I

Prisioneiro que chegasse com vida à sua presença, já sabia a sorte que o esperava. O povo não o esqueceu, e é da barbárie deste francês, que resulta a expressão tão comum no nosso país – “ Vê lá se queres ir para o maneta”. A morte levou-o aos 45 anos de idade, sem ter tirado partido de duas décadas de saques e pilhagens, a que se dedicou, servindo o império.
Como itinerário a percorrer, tínhamos o caminho histórico, que outrora constituiu a antiga estrada para Montalegre, utilizado pelo II corpo do exército napoleónico, exausto, roto e faminto, na sua retirada, a partir da madrugada de 15 de Maio de 1809.
Muitos cabos de guerra, jamais pensariam fazer passar por ali um exército, como refere o general Carlos Azeredo, no seu livro – A Invasão do Norte. Talvez fosse até, desconhecido, por alguns dos seus perseguidores.
Após uma pequena cerimónia na Junta de freguesia de Salamonde, onde os caminheiros do Grupo Portuense de Montanhismo e os do INATEL, retribuiram ao presidente e restante equipa, a forma amável e o carinho, como sempre tem sido recebidos, fizemos uma breve visita ao que resta do traçado da via Romana XVII, no interior da aldeia.
Fomos então até à igreja, onde se fez um enquadramento histórico da marcha. Local, onde Soult instalou o seu estado maior e os restantes efectivos pelas casas vizinhas, que mais tarde incendiou. No cruzamento das Almas, utilizamos o mesmo caminho que as tropas do exército napoleónico tomaram 197 anos antes, seguindo por uma íngreme vereda até à corga do Saltadouro.
Apesar do excessivo calor, a beleza da paisagem, ia atenuando o esforço dispendido, e nos miradouros do caminho, as máquinas fotográficas, entraram em acção, obrigando à recontagem do grupo, para evitar percalços com os atrasados. Na verdade, a paisagem, exigia estas paragens, e merecia ser contemplada.
Foi rápido chegar até este afluente do Cávado, que percorre uma corga abruta onde o rio se movimenta em pequenas cascatas. A ponte medieval, com o mesmo nome, que o major Dulong e um grupo de 100 homens, tomaram pela calada da noite, dominando as sentinelas, jaz sob as águas da albufeira de Salamonde. Foi na nova ponte, construída pela EDP, que o Jorge Ribeiro, a quem se deve o estudo deste histórico caminho, contou ao grupo, como se deu a tomada, da antiga obra de arte.
Aproveitamos para almoçar, e partimos em direcção à ponte da Misarela, mais conhecida pela ponte do Diabo. Do Saltadouro até ao lugar de Frades, o caminho tem poucas sombras e como não há fontes, quem não poupou, sofreu até ao reabastecimento.
Naquele lugar, enchemos os cantis, conversamos com o senhor Manuel, nosso velho conhecido, e seguimos para a Misarela, marco de pedra, da resistência dos povos desta zona, ao invasor francês.
Paragem prolongada, para ouvir de novo falar da luta entre os portugueses entricheirados na margem direita do Rabagão, e as tropas do Loison e Heudelet, onde se destaca de novo o major Dulong, que acabou por ser recompensado pelos portugueses, com um tiro na cabeça….”esteve quase a ir para o maneta”
Não arredamos pé, sem se ouvir falar da lenda da ponte e dos baptismos pré-natais. Por fim, subimos a calçada onde muitos Gervázios e Senhorinhas, a fizeram pela primeira vez, assente na crença de que as águas do Rabagão, antes de se fundirem com as do Cávado, têm a virtude de dar vida, aos que ali passam, no ventre de suas mães.
Texto:Fernando Fontinha
Fotos: Jorge Ribeiro
1 Comments:
Caro amigo Jorge, gosto do estilo deste blogue. Espero que fique carregado de percursos.
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