sexta-feira, outubro 31, 2008

Retirada do Marechal Soult IV


Soult entre Paradela e Montalegre

"No dia 17 de Maio 1809 o exército de Soult marcha de novo. O Marechal à frente de uma divisão de Dragões subiu ao alto da serra à sua direita para se assegurar que o General Beresford, ao comando do exército português, não se dirigia a Montalegre…"

In:Pierre Le Noble – Memórias das Operações Militares dos Franceses na Galiza e Portugal


“Na verdade o exército de Soult, partindo de Paradela e seguindo pela velha estrada para norte,
foi saqueando e destruindo as pequenas povoações que encontrou a caminho da fronteira…”

“A fim de melhor se esclarecer sobre o seu flanco direito e prevenir alguma acção de Beresford
a partir de Chaves e Boticas.
Ele próprio marchou com uma divisão de Dragões pela linha de alturas do Gerês divisória das águas do Cávado e do Rabagão…”

In: Carlos de Azeredo – As populações a norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809


MARCHA DE MONTANHA
A Retirada de Soult com os Dragões (Percurso Histórico)
Percurso entre Paradela do Rio e Montalegre – 22 km
17 de Maio de 2008


Voltando ao tema da guerra peninsular, o Grupo Portuense de Montanhismo, fez-nos retroceder quase dois séculos, encaminhando-nos para os dias difíceis da segunda invasão francesa. Recordamos que este grupo, levou a cabo no ano de 2006, o percurso entre Paradela do Rio e Montalegre ( Retirada de Soult III), pelo mesmo itinerário que as tropas de Soult utilizaram, quando bateram em retirada no mês de Maio de 1809.
Convém no entanto referir, que o marechal não acompanhou as tropas de linha, mas seguiu pela cumeada da serra que separa os vales do Cavado e Rabagão, na companhia de uma divisão de dragões. Este pormenor, explica o facto de se ter organizado esta marcha, reconstituindo o percurso seguido. Os dragões, constituíam um corpo de tropa de elite, e daí a opção tomada pelo marechal, prevenindo qualquer eventualidade. Sem errar demasiado, podemos compará-los aos comandos dos dias de hoje.
Esta manobra do experiente cabo de guerra, tinha como objectivo evitar qualquer investida vinda do seu flanco direito, uma vez que no seu flanco esquerdo seguia o resto do exército, como atrás referimos. Permanecerá talvez para sempre, a dúvida sobre a forma como se orientaram para chegar tão rapidamente ao seu objectivo, em condições climatéricas difíceis, como foi o mês de Maio daquele ano. É mais do que provável, de que devem ter beneficiado da companhia de alguém que conhecia muito bem o terreno, guia promovido à força ou a troca de dinheiro.
Por fim, recordamos que Soult e os dragões abandonaram Paradela na manhã de 17 de Maio e chegaram a Montalegre na tarde do mesmo dia. As forças perseguidoras não chegaram a tempo de intersectar o que restava do esfrangalhado exército napoleónico, que conseguiram pernoitar em Ginzo del Limia, no mesmo dia que as tropas do general Silveira, chegavam às portas de Montalegre.
Estabelecido que está o enquadramento histórico, com os lapsos que certamente perdoarão a quem não está habituado ao estudo dos factos históricos, passemos então ao nosso percurso.
Recrutaram-se perto de duas dezenas de veteranos, calejados nas batalhas do Gerês, Peneda, Cabreira e Amarela, experientes neste tipo de terreno. Fazem-se as verificações habituais e partimos de Paradela, junto à casa onde o marechal pernoitou.
A previsão de que a chuva apareceria, era testemunhada pelas grossas e escuras nuvens, que durante grande parte da marcha, se tornaram nossas aliadas, poupando-nos o desgaste de um dia de calor.
Até à “Cruz da Pala do Rei” o caminho, com bom piso, corre entre prados de lima e bosques de carvalho negral. No Oral temos cerca de meia légua bem medida, sempre a subir. A partir daqui, os prados de lima e os bosques de carvalho dão lugar à urze e mato rasteiro, que pouco medram devido à rudeza do clima e à escassez de alimento.
Estamos acima dos 1100 metros de altitude. Á nossa volta só montanhas e barragens! Os caminhos começam a escassear e a fugir à cumeada, pelo que, entre a Formiga e o Pombeiro, evitamos as zonas húmidas onde a progressão é difícil, recorrendo às travessias, com o auxílio do GPS. O novo objectivo é a “Pedra da Missa”, que se atinge após rodearmos alguns caminhos impraticáveis tomados pela vegetação. Fizemos então uma pausa para observarmos do alto da montanha, as aldeias morenas do Barroso, onde as casas se aconchegam para se defenderem da rudeza do clima. Nos vales, regressam os carvalhais e os prados de feno e centeio, contrastando com a aridez da serra. Almoçamos e aproveitamos para conviver um pouco, com os sentidos entretidos no espelho de água da barragem do Alto Rabagão.
Até ao Alto de Ribas é mais quilómetro e meio de subida que nunca mais acaba, onde um pequeno marco confirma os 1178 metros de altitude. Entre Ribas e o Facho é um sobe e desce desgastante, amenizado pela paisagem que se vislumbra. Estava escrito de que a marcha não acabaria sem a bênção de S. Pedro, como veio a acontecer. Depois de passarmos o Alto do Facho aos 1250 metros a temida chuva, fez a sua aparição, vinda do lado do Larouco. Com os impermeáveis vestidos, caminhamos debaixo de chuva até ao Fojo do Lobo. Daqui até Montalegre o caminho é plano, mas ainda fez estragos nas tropas, pelo que foi bem recebida a ordem de tocar a reunir para o lanche.
Não temos dúvidas de que esta marcha, ficará certamente gravada no livro de recordações de todos os que nela participaram. Além de um saudável clima e espírito de entreajuda, o que aliás, é habitual nos percursos do GPM, pudemos desfrutar das mais variadas e inesquecíveis visões da montanha, conjugadas com a aventura de calcorrear este percurso histórico, interdito aos que privilegiaram a comodidade do sofá.


F. Fontinha

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